O Barrense


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O futuro que imaginei pra nós

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Terminou. Mas, vem cá, nós começamos? Tenho minhas duvidas… Você não quer e, claro, eu também não quero. Ou você acha que quero ser espectador privilegiado do maior espetáculo que esse planeta Terra há de comportar: você acordando? Ou admirar aquela dificuldade mortal de abrir os olhos mais lindos que os meus já cruzaram? Não! Engano seu. Nossa historia sequer começou a já colocamos o ponto final. Sem entrelinhas, vírgulas, anticlímax, clímax, final feliz ou desastroso, nada. A historia mais linda que podíamos escrever resumida num parágrafo.

Fim.

Bem, só você sabe o quanto gosto de imaginar. Segundo você meu grande defeito é fantasiar demais. Inflacionar minhas expectativas de tal maneira que a realidade jamais será capaz de concretizar. Desculpe, é meu jeito. Tenho a cabeça nas nuvens enquanto você é pé no chão. E sou réu confesso: antes de dormir gosto de ter um tempo pra imaginar o futuro. E quer saber? Imaginei um futuro pra nós.

Imaginei as fotografias que tiramos das viagens que fizemos e senti saudades do seu cabelo num penteado desajeitado que só você sabe fazer. Os amigos que tivemos, o som que ouvimos juntos e as noites em barzinhos. Até uma guerra de travesseiros e da decisão que tivemos de assistir um dos filmes que compramos comendo um dos brigadeiros que você fez.

Ah, não posso esquecer a nossa casa. Os livros que eu nunca soube se eram meus ou teus. A nossa vontade de aproveitarmos o nosso final de semana em casa recebendo amigos, comendo pizzas assistindo as comédias nacionais.

Lembro exatamente do dia em que eu descobri que você seria a mulher perfeita pra mim. Quando eu peguei na sua mão, olhei no fundo dos seus olhos que pareciam ainda mais verdes, e disse que te amava.

Nossa história é aquela que nunca existiu. Mas eu vivi na cabeça tantas vezes cada um desses momentos, que eu até esqueço que era só fruto da minha imaginação. Ah, não te esquece: eu não quero.


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Esse teu relógio

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Você nem sabe, mas sempre conto quanto tempo a gente vai ter junto em um determinado dia. Faço contas mentais pra saber exatamente quanto vou poder aproveitar do momento. É tipo quando a gente dorme tarde e fica contando quantas horas faltam para acordar. Eu sempre conto quantas horas faltam para acordar do sonho que é estar com você.

O problema é esse seu relógio, ele nunca está no horário que devia. Os ponteiros se arrastam pra marcar a hora do nosso reencontro, como se fizessem por birra, ciúmes ou coisa parecida. Deve ser porque viram outros tantos machucar esse teu coração. No teu punho viram juras de amor se desmoronar como castelos de areia. Apostaram naquele amor, jurando ser diferente dos demais, se entregaram, até retardaram o passar do tempo e no fim era só mais um, outro que te fez chorar. Por estar atrelado ao punho ele sente o pulsar do seu coração, lembra de cada vez que ele bateu forte e por quem bateu. Cada hora guarda uma lembrança amarga, dessas que você não deseja reviver, que te causam medo de tentar, medo de se envolver, medo de se entregar. Medo. Hoje percebo que você está precavido, não para o tempo por um qualquer. Sabe quem merece cada segundo ao lado dela.

Só te peço uma chance ao lado dela, alguns minutos e depois você pode julgar se mereço desfrutar cada instante com ela. Prometo não perder tempo ao lado dela. Prometo não atrasar a vida dela. Com ela quero hora extra. Quero banco de horas. E se for pra matar alguma coisa, que seja o tempo na tua companhia.

Ajusta teu relógio. Horário? O meu. Só não se atrasa mais, não suporto mais te esperar, mesmo que você seja pontual.


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Eduardo e Mônica

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Apesar do longo tempo afastado de Deus, jamais esquecera o rito de pedir e agradecer: Ajoelhou-se frente à cama e uniu as mãos. Cabeça baixa. Dizeres sussurrantes, quase inaudíveis.

A caixa celestial reportou um novo e-mail-oração. Remetente: Eduardo.

- Hum. O bom filho à casa torna. Preciso ver essa de perto.

Eduardo estava começando sua oração, e pra variar, justificando sua ausência.

- Há tanto tempo que não converso com você que perdi o jeito, sabe?! Semelhante ao jogador que volta de lesão. Não me culpe.

E agradeceu. Agradeceu à vida o universo e tudo mais. Deus logo desconfiou.

- Amé… Ainda não. Como pude me esquecer. Deus, não pretendo mais tomar seu tempo, portanto serei objetivo: onde estão as Mônica’s deste mundo? Você as baniu?

Não demorou a tardar pra desconfiança de Deus se tornar realidade. Depois de tanta bajulação, algumas pitadas de crítica e pedidos. Porém, desta vez, seria diferente.

- Se eu as bani? – disse uma voz rompendo o silêncio da noite.

Eduardo levanta a cabeça e olha ao seu redor. Não há ninguém. Ele se pergunta se bebeu.

- Não, Eduardo, você não bebeu.
– Deus, é você?
– Sim!
– Impossível!
– Juro que não entendo vocês, humanos. Dizem-se fiéis, mas no primeiro contato comigo se mostram incrédulos.
– Perdão. É difícil acreditar.
– Apenas acredite.
– … [boca aberta, olhos amendoados]
– Então, qual o problema com as Mônica’s? Algo a reportar?
– Acredito que falhaste na criação.
– Na criação?
– Você deve ter desfavorecido elas.
– Por quê?
– Elas simplesmente não existem.
– Hum. No meu catálogo constam Mônica’s, sim.
– Hãm, no seu catálogo…
– Algum problema?
– Veja no seu catálogo a proporção de Mônica’s com Carolina’s e Mariana’s.
– …
– O que me diz? Não são raridades?
– Normal. Todo pai e mãe tem o direito de escolher o nome da filha. Livre arbítrio.
– Sei…
– Com tantas mulheres, porque Mônica? É só um nome.
– Não! Não é só um nome.

A princípio Deus não percebera o teor da discussão. Mas agora estava claro. O sujeito estava perdidamente apaixonado e recorrera a ele, como ultima instancia, para ajuda-lo. O sentimento mais puro entre humanos, esta raridade chamada amor, em desuso na terra.

- E porque Mônica?
– Você já escutou Legião Urbana?
– Claro. Vou aos festivais deles no céu.
– Festivais de rock no céu?
– Vamos manter o foco na Mônica.
– Tudo bem. Você já deve ter escutado “Eduardo e Mônica” num destes festivais, certo?
– Sim! Linda canção.
– É! Sabia que você seria maneiro.
– …
– Hehe, desculpe a empolgação, não é todo dia que você se encontra com Deus.
– Prossiga.
– Tenho um sonho: Estar numa festa e despretensiosamente começar a tocar Eduardo e Mônica. Cruzo meu olhar com uma garota. Ela retribui. Me aproximo e digo “prazer, Eduardo”, e ela “Mônica”. E assim iniciamos uma linda historia a dois. Entendeu?
– Porque você não se apaixona pelo que a pessoa é? Nome é apenas perfumaria.
– Não sei. O amor é surpreendente e difere de pessoa para pessoa. Você como ninguém deveria saber.
– Se sei…
– Então, porque as Mônica’s parecem em extinção?
– Não sei se posso falar.
– Agora fala.
– Segredo celestial.
– Ficara só entre nós dois.
– Promete?
– Claro!
– Se Renato Russo criou uma legião de Mônica’s, Mauricio de Souza tratou de extermina-las.
– Mauricio de Souza?
– O criador da “Turma da Mônica”.
– Não entendi.
– A sociedade moderna chama de Bullyng. As filhas jamais perdoariam seus pais.
– Hum, logo ligariam a pessoa ao desenho animado. Faz sentido.
– É…
– E não tem como você dar um jeitinho?
– Jeitinho?
– É! Quem sabe você fala com esse Mauricio de Souza no passado e o impede de criar à famigerada “Turma da Mônica”? Ou só mudar o nome, que tal a “Turma da Jéssica”?
– Não posso.
– Não pode? Você criou o universo em sete dias e não pode mudar uma coisinha de nada?
– Fiz um voto de não interferência.
– Como você disse, nome é só perfumaria.
– Independe do valor da ação, estaria alterando o rumo natural do mundo.
– Mas você não é o criador? Onipotente, onipresente e tudo mais? O todo poderoso?
– Sou. Mas não interfiro nas ações humanas.
– E o dilúvio?
– Aconteceu.
– Aconteceu? Uma chuva entope bueiro acontece, agora, dilúvio?
– Vocês não estão sós, mas estão por conta própria. Não era isso que queriam? Vocês tem completa autonomia sobre suas ações.
– Pelo jeito sem chance de voltar no tempo. E quem sabe uma costela? Ninguém notaria e prometo segredo, celestial.
– Criações envolvendo costela se encerraram com Adão e Eva.
– Tenho os mesmos direitos que Adão.
– Encare a realidade, Eduardo.
– E que tal duas? Já pensou, duas costelas? Que Mônica sairia?
– Aaaaaaaah… Tenha santa paciência.
– Parei, parei. Desculpe. Nada de costelas.

Deus pensou, pensou, e pensou. Não saberia ao certo como sair dessa situação. De fato Mônica’s eram raras, mas eram coisas da vida. Certos nomes se perdem com o passar dos anos.

- Deus, você está aí?
– Uhum…
– E?
– Sinto muito, Eduardo.
– Sinto muito? Só isso?
– Corra atrás de seus sonhos.
– Discurso motivacional não.
– Que mais posso dizer? Imagine se eu criasse uma Mônica só pra você, teria de atender a todos os outros pedidos. Seria o caos.
– Mas quem disse que essa conversa precisa chegar aos outros?
– Não estaria sendo justo.
– Justo? E quanto a mim?
– Verei o que posso fazer por ti. Boa noite.
– Não, não, espera, esp…

Apagou.

Eduardo acordou no outro dia com a estranha sensação de ter tido um sonho incrível na noite anterior. Nada estava claro. Conversava com Deus, algumas dúvidas e nenhuma certeza.

Seguiu sua rotina. Higiene pessoal, café, vestuário… Quando chegou a escrivaninha notou algo diferente: uma pasta. Mas não uma pasta qualquer. Aquela era uma pasta de proporção considerável. E Eduardo não se lembrava de ter trazido pasta alguma do trabalho ou faculdade.

Abriu. No título, letras garrafais: Catálogo de Mônica’s. Em letras miúdas, no pé da página, os seguintes dizeres: use com sabedoria.

Obs.: Segredo celestial.


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Uma vida esperando

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[Você pode ler esse texto ao som de William Fitzsimmons - Beautiful Girl]

Há certos momentos que você deseja apenas a sua companhia. E não falo de momentos especiais. Pode ser aquele sábado que você acordou cedo pra ir pra faculdade, cursar aquela cadeira de alemão que sabe-se lá porque você escolheu. Acontece que você não deseja se relacionar, ainda que esteja no transporte coletivo. Suas portas estão fechadas para o mundo. Você coloca os fones de ouvido e pronto! Sua fortaleza pro mundo exterior. Nada de visitas!

Fim!

Infelizmente a vida teima em nos desrespeitar. Não segue nossos desejos. Eu quero “A”, ela quer “B”, e será “B”.

E você deve estar se perguntando quem em sã consciência cursaria ALEMÃO num SÁBADO, não é?! Lamento lhe informar, mas também não encontrei a resposta. Quem sabe isso explica porque minha vida social esteja tão emocionante

Voltando ao ônibus… Lá estava eu, numa manhã fria de sábado, sentado num dos últimos bancos. Eu, o cobrador e o motorista. Sete e trinta duma manhã de sábado! Coloquei os fones pra tocar “William Fitzsimmons” com sua inconfundível serenidade e me deixei acariciar pelos primeiros raios solares que iluminavam a cidade, lenta e trôpega após uma tremenda noite de sexta-feira.

Como é de hábito o motorista arrancou em exatos cinco minutos. Arrancou e tão logo freou. Bruscamente. Desviei meu olhar para o motorista. Ele sorriu. Abriu as portas e foi então que a vi. “Bom dia”, disse ela ao motorista. “Obrigada, você salvou meu dia”, completou ela, ainda ofegante. Se aproximou da roleta e logo tratou de puxar a “niquileira” – esse receptáculo onde mulheres guardam infinitas quantidades de moedas. Após certo tempo contando moedas, pagou o cobrador, não sem antes esbanjar graça e finalmente passar pela roleta. Vasculhou o ônibus com os olhos para ver onde sentaria. Ela caminhou. Caminhou. E caminhou.

- Bom dia – disse ela, sentando-se á minha frente. Aliado ao bom dia ela abriu um sorriso, desses sorrisos raros que você vê quatro ou cinco vezes na vida.
– Bom dia – disse eu, tirando os fones e esboçando um sorriso de canto, meio que sem jeito.

Num horário de pico, onde pessoas parecem sardinhas no ônibus, isso jamais aconteceria.

- Você deu sorte, por pouco não perde ônibus – falei, involuntariamente, tentando estender a conversa.
– Ah, nem me fala. Se perco esse não chego a tempo de fazer a prova de francês – disse ela, me desmontando como uma casinha de lego (ainda estou em duvida do que mais me encantou: O sorriso dela que desarmou minha fortaleza; A voz rouca que soou como melodia; O olhar hipnotizante).

Ela ficou de lado na poltrona. Começamos a conversar despretensiosamente, ela sorria enquanto falava. Ela sorria enquanto eu falava. Eu sorria por vê-la sorrir. Poderia passar a eternidade a vendo sorrir. Você não imagina a combinação entre: sol + ela sorrindo. O resultado é maravilhoso. Impossível de expressar em números.

Quando sorri, ela fecha os olhos. Como se as cortinas do teatro fechassem, anunciando o fim, e não mais que de repente, numa questão de segundos, se abrem novamente e o espetáculo recomeça. Estar ao lado dela se mostrou uma verdadeira peça teatral, dessas que ficam décadas na Broadway, e, num desses tantos sorrisos, num desses abrir e fechar de cortinas, percebi que quero assistir a esse espetáculo todos os dias pelo resto da minha vida.

Se ela não esta sorrindo, se eu não estou sorrindo, ela repousa seus olhos castanhos nos meus e concentra em mim sua atenção. Um olhar que te compreende até o ponto que você gostaria de ser compreendido, que acredita na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando que eu passei a melhor impressão possível.

Assim passamos a viajem: entre sorrisos e olhares que todos desejam receber, pelo menos em determinadas ocasiões e por pessoas especiais.

Rezei por algum contratempo surgir e causar um congestionamento instantâneo para ganhar algum tempo com ela. Rezei para o motorista se sensibilizar conosco e reduzir a velocidade. Rezei para o ônibus desviar a rota porque o cobrador esquecera o troco na sede da empresa. Rezei para que, de alguma forma, passássemos mais tempo juntos. Assim, trocando amenidades, falando sobre nada e tudo ao mesmo tempo.

Invariavelmente a conversa teria de acabar. O congestionamento não surgiu. O motorista não desacelerou frente à rua vazia. O cobrador não esqueceu o troco. Nenhum imprevisto surgiu para tardar o inevitável.

Me despedi dela com a dor de estar perdendo à pessoa que tanto esperei e só então me dei conta que não sabia o nome dela.

- Espera! – eu disse – Teu nome?
– É Branca!
– Nos vemos sábado que vem?
– Você me espera? Caso eu me atrase?
– Claro! – disse, me despedindo com um aceno singelo. Ela retribui mandando um beijo. Começo a sorrir involuntariamente.

“Você me espera?”, a frase dela ainda ecoando na minha cabeça. Se eu te espero? Te esperei uma vida, e não há espera maior do que essa.

Obrigado, cadeira de alemão. Você tornou sábado o melhor dia da minha semana. E vocês se perguntando do porque cursar ALEMÃO em pleno SÁBADO, não é?! E agora, explicado?

(Obrigado, vida. Por ser a melhor roteirista que eu não poderia escolher. Obrigado por me surpreender e ignorar minhas escolhas)


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Ela

2007072500_gemeye-tm
Vaga um corpo de mulher
marcado pela ousadia de
não entregar sua vida
ao comum e triste fim
de uma rotina.

Chora a dor uma mulher
que busca ser incomum
não se deixando levar
para um fim de iguais
seres comuns.

Alça vôo uma mulher
que cansou de em terra pisar,
esgotou o gesto amadurecido
quer agora é recuperar o gosto esquecido.

Olha ao longe uma mulher
que sonha em deixar para trás
um horizonte perdido,
criando um novo amanhecer dentro
de um velho anoitecer.

Rasga o livro uma mulher
que não quer histórias sem prazer
ela busca no enredo
a própria vida sem medo.

Se não for assim,
não vale a vida viver e o sonho de mulher
em pesadelo de menina irá morrer.

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