O Barrense


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TPM day

tpm

- Amor, você nunca se declara pra mim.
- Mas amor… pra que? Você sabe que meu mundo é você.
- Amor, o mundo é o planeta e ele é redondo… ta me chamando de gorda?
- Nunca! Ta bom amor, verdade, então meu mundo não é você.
- Você ta dizendo que não sou nada pra você?
- Não amor, estou dizendo que te amo sim, muito.
- Você ta dizendo isso por que eu pedi…
- O que eu posso fazer então pra provar meu amor?
- Quer dizer que você precisa provar que me ama? Que decepção.
- Não amor, não disse isso, não quero que se chateie, mas creio que queira uma demonstração de amor, pelo menos é o que eu entendi.
- Bom… mas essa demonstração é verdadeira ou só porque você não quer me chatear?
- Olha… vamos fazer assim então, não falamos mais nada senão isso vai acabar virando uma discussão, ok?
- Você ta dizendo que ta quase brigando comigo? É isso?
- Não amor, to dizendo que essa conversa esta chegando num nível estressante.
- É assim né? Eu peço pra você se declarar pra mim e tudo que ouço é que sou gorda, que não sou nada pra você, e agora ta dizendo que eu te estresso e você ainda briga comigo. Homens são todos iguais mesmo, e eu perco meu tempo achando que você poderia ser diferente!

marujos


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Marujos conversam

- Capitão André – diz, batendo continência.
- Olha só, Paulo, sô autoridade.
- Não é autoridade dentro de casa vai ser na rua?
- Falou o cara que ainda mora com a mãe…
- Ei, olha o respeito.
- Para com idoso?
- Tenho meus privilégios, hehe.
- As crianças já pararam?
- Nem começamos.
- Sei, mas e aí, Paulo, como que anda?
- Com as pernas, hehehe.
- Malandro.
- Demandas do mundo contemporâneo, meu jovem. E por lá, está todo mundo bem?
- Todo mundo? Você quer dizer os países africanos também?
- Aaaah, vai te deitar.
- E tu, capitão? Pronto pra outra?
- Se tu estiveres se referindo a velejada ao morro, nem morto.
- Por quê?
- Dou valor a minha vida. Se partíssemos outras dez vezes, naufragaríamos nove. Não sei te dizer o que aconteceu.
- Sorte!
- E tu acredita em sorte, Paulo?
- Não acredito, mas é bom contar com ela…
- Muito sábio, tio Paulo, muito sábio.
- Aliás, naquele dia vocês contaram mais com a sorte do que deviam. Não se deve subestimar a lagoa.
- E eu falei pra ele, Paulo.
- E adiantou?
- Nada. O homem estava cego. Disse que o barco fora construído pra navegar, independente da condição climática, venceria a fúria da natureza. Tava enfezado.
- Me deixa adivinhar: o corajoso não foi capaz de assumir o leme do barco?
- Guri, nem sempre filho de peixe, peixinho é. O Adão foi criado na cidade. Não conhece as artimanhas da lagoa.
- Hum, e deixou esse abacaxi nas mãos do glorioso Capitão André?
- Isso.
- E como que foi, André?
- Mais feio que briga de irmão. Barco muito bandoleiro. Estabilidade zero. E pior, tinha que rebocar uma lancha de alumínio. Além, é claro, de estarmos com excesso de peso. Barco calado demais na água.
- André, nem os antigos faziam essas insanidades. O pai dizia: perigo no mar, marujo no bar.
- Esse Paulo é um sábio.
- Que nada. É apenas o tempo. E se tratando de tempo, lembro-me de uma boa, bem, é boa hoje, na época foi horrível.
- Ãhm…
- Fomos acampar na ponta do ciroula e, na época, não existia internet para verificar a previsão do tempo, e a própria previsão não era tão certeira no rádio ou jornal. Mas fomos sob promessa de tempo bom pra próxima semana, com céu azul e sem nuvens. Passamos o final de semana sem contratempo, o problema foi partir. Nuvens negras e “mar” revolto nos impediram de zarpar. Até tentamos, mas o chacoalhar das ondas já estava abrindo rachaduras no barco, ele não resistiria até o final. Voltamos. E como nos preparamos somente pro final de semana, já estávamos sem comida. E assim passamos dois longos dias. Comida e água a conta gotas. Policiando-nos. O pai dizendo: não arredamos o pé daqui enquanto o céu não abrir. E, finalmente, pela manhã do terceiro dia, o céu clareou e rapidamente levantamos acampamento e partimos. Sem não antes tapar as rachaduras da canoa com nossas camisetas. Chegamos são e salvo, e claro, com fome.
- E se o temporal não cessasse?
- Olha, não sei como esse filme terminaria, o enredo não era bom.
- Tragédia anunciada.
- Paulo, teu pai fez certo, agir com cautela nessas circunstâncias é pensar com sabedoria. Não sabemos o que a lagoa nos reserva. E por a sorte a prova não me parece uma boa ideia. Imagine naufragar no meio da lagoa?
- Difícil até de imaginar.
- Pois é, nada me tira da cabeça que alguém lá de cima olhava por nós, por pouco não fomos ao fundo. Tínhamos que ter ficado no acampamento e que se danem os compromissos. Não havia porque nos colocar em risco.
- Não há dinheiro no mundo que valha o valor da vida. Não há.
- É verdade. Só se conhece a importância da vida quando se depara com a morte. E não quero um segundo encontro tão rápido.
- Ninguém quer.

boat-storm

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Amor e futebol

futebol-amor-reprodução

Você já se perguntou por que ama seu clube de futebol? Talvez seja seu pai, ou avô, quem sabe sua mãe? E porque ama? Mesmo ele não sendo o melhor time do mundo ou lhe garantindo alegrias constantes?

A meu ver, o futebol emula as relações humanas. No que tange o amor pelo clube, é como você é sua esposa. Você não possui a mulher mais bela do mundo, vamos ser sinceros (a não ser que você seja casado com a Fernanda Lima ou marido da Scarlett Johansson), mas nem por isso deixa de amá-la. Pra você ela é o que mais existe de belo no planeta, as outras são apenas outras. E, a exemplo da mulher, você não torce pelo melhor time do mundo (sob uma perspectiva lógica, é claro), mas nem por isso o abandona, pelo contrario, aproxima. É uma questão que foge do raciocínio lógico. O amor é assim, destoa da compreensão humana, você ama por motivos que apenas você conhece, de relevância pessoas intransferível. E, obviamente, ele é cego. Você se deixa levar e não mede consequências.

É paixão a primeira vista. É adorar cada detalhe que passaria despercebido perante os demais. Se isso não é amor o que mais pode ser?

Amor nem sempre correspondido. Pois, como explicar aquela seca danada de títulos e você ali,  não arredando o pé, jurando amor eterno? Amor desmedido que, mesmo com um time digno de ser rebaixado, você se enganava, pior, acreditava. Amar é acreditar no impossível e, em raríssimas oportunidades, ser surpreendido.

Discussões calorosas colocarão a prova seu conhecimento e paixão. Nem sempre você terá razão (na maioria delas não terá), mas insistirá em dizer que seu clube é superior ao rival, mesmo com menor número de vitórias em clássicos, títulos e torcida. É irracional. É amor.

Portanto, o amor é mais do que beleza, transcende a racionalidade, é algo de pele. E o futebol é assim. Você ama esse clube e esporte incondicionalmente. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Até que a morte nos separe.

Obs.: Se você for mulher, não se sinta ofendida, troque os nomes citados por: Rodrigo Hilbert e  Brad Pitt.

alvis1


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Prosa de estrada

 

alvis1

Enquanto isso em algum engarrafamento qualquer…

- Tu viu pai que agora a Raquel é da umbanda? Até tatuagem fez…
- Não vi. Tatuagem do que?
- Runas. Diz ela que é de proteção.
- Hum. Entendo. Proteção pra que?
- Não tenho ideia. Quem sabe olho gordo e essas coisas?
- Se resolver, me avise, tô precisando.
- Hehe, somos dois.
- Curioso é que essa guria troca de religião como quem troca de roupa.
- Verdade. Sempre mudando de galho. Acho que ela procura alguma religião que atenda aos seus pedidos, meio egoísta, mas…
- Desde que a fé dela seja verdadeira e faça bem a ela, que ela faça o que bem entender.
- Também acho. Cada um é dono do seu próprio nariz. E que continue assim, entendo isso como a liberdade individual de cada um.
- É, filho, mas nem sempre foi assim. Nos anos de ferro não tínhamos muitas escolhas. Era “a” ou “b”, tudo previamente estabelecido. Devíamos andar na linha, ou…
- Ou?
- Bem, nunca conheci alguém que não andou na linha e voltou para contar sua história.
- Não consigo imaginar isso. Sabe, não se encaixa no que entendo de sociedade.
- É realmente complicado. Incompreensível, filho. E há quem apóie a volta deles, da pra acreditar?
- Não da, mas precisamos ficar de olho.
- Isso. Povo que desconhece sua história está fadado a repetí-la.

Liga o som pra aliviar o clima no interior no carro.

- Filho, essa história de mudar de religião, já fiz muito isso.
- Pulando de galho em galho?
- Isso. Já fui católico, espírita, já fui em terreiro, e hoje sou luterano. Mas conservo um cadinho de cada religião.
- Hum. Pegou o bom de cada uma?
- Isso. Mantenho minhas raízes. Sou devoto de nossa senhora, admiro e acredito no trabalho de Chico Xavier, respeito os orixás e prático minha fé na igreja luterana.
- Eita, quanta mescla ein, Pai? Que riqueza cultural.
- Pois é. Procurei vivênciar as mais variadas religiões para escolher em qual me encaixava.
- Interessante. E novamente contrapondo o que discutimos anteriormente dos anos de ferro.
- Exato. Alguns não entendem, até não aceitam. E por essas e outras que prefiro não espraiar minhas convicções e optei por ser resguardado, que só cabe a mim saber e julgar.
- Pelo jeito a mãe…
- Pois é, tua mãe sumiu com meus quadrinhos.
- Que quadrinhos?
- De Jesus.
- Hum, lembro deles, mas realmente sumiram.
- Sabe, nem falo nada. Com o passar dos anos o casamento se torna um exercício de paciência e de tolerar a companheira. Abrimos mão de algumas coisas para manter a relação firme e forte. É isso ou não há fortaleza que resista a dois cabeças duras.
- Pô, e a mãe é cabeça dura.
- Ôôôô se é.

Aumenta o som.

- Esse aí cantando não é o Ney Matogrosso?
- É, ainda nos secos e molhados.
- Parece voz de mulher.

(Gargalham)

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Cafajestes

Os cafajestes são diferentes. Não possuem dó nem piedade. Desmancham casamentos sem remorso algum. Aproveitam-se de mulheres casadas – mundialmente conhecidas pela fragilidade do matrimonio e na certeza de que dez mais dez são vinte, elas sempre caem na tentação, é apenas questão de encontrar o cafajeste certo.

Ele perambulam nas sombras, são rasteiros. Você os conhece de longe e mesmo assim se deixa levar. Ele possui o traquejo na ponta da língua. A malemolência em gestos. O sorriso não engana, de fato, a canalhice está em seu DNA. O cafajeste fala o que a mulher quer ouvir, não necessariamente a verdade.

São raros, os cafajestes. Quando Dominam a artimanha da conquista guardam apenas para si. Não divide com ninguém. É seu mantra. A religião de um homem só.

Duelar com ele é páreo corrido. Melhor tirar seu cavalo da pista. Possuem sistemas que apenas eles compreendem e, sem lógica alguma, funcionam.

Eles são difíceis, os cafajestes. Reúnem-se em lugares certos, em várias partes do mundo, mas não se olham nos olhos. Trocam lamúrias e reminiscências, como em qualquer confraria de especialistas, mas é como se estivessem sozinhos. De vez em quando levantam a cabeça e olham e voltam, à procura de uma possível vitima. Se lhes perguntarem: “Conhece outro canalha?”, terão que responder:

– Só conheço eu mesmo.

E se insistirem, “Me disserem que o Fulano ainda joga…”, responderão:

– Não, se aposentou. De cafajeste só conheço eu mesmo.

Eles são sombrios, os cafajestes. Só falam nos companheiros mortos ou nos que pararam, os outros são concorrentes. Cafajeste bom e vivo só conheço eu mesmo.

Bebem. Afogam-se em copos e garrafas. A desculpa? Veem a sua amada no fundo do copo, se afogando e bebem para salvá-la. Misteriosamente ela some quando o líquido chega ao fim.

Falam do casamento com desdém e de semelhantes “traíras” só antes de cuspir. Eles têm pesadelos. Sonham com a marcha nupcial, o padre, a igreja, o sim, o beijo que selara o caótico futuro.

São raros, os cafajestes.

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Divagações de um casal na praia: sinceridade e cumplicidade

O casal caminha despretensiosamente pelas fofas areias de uma praia paradisíaca qualquer, quando… Uma estonteante e linda mulher caminha de encontro a eles.

- Tu esta vendo aquilo ali? – pergunta ele.
- O que?
- Como assim “o que”? Me desculpa, mas não tem como não olhar.
- Safado!
- Tô sendo sincero contigo. Não é isso que tu sempre diz que devemos manter? A sinceridade e cumplicidade entre nos?
- Bem…
- Amor!, olha aquilo! Não tem como não olhar, me desculpa.

A bela moça passa.

Eis que…

- Amor, tu tá vendo o que estou vendo? – diz ela com tom de voz sarcástico.
- Prefiro fechar os olhos…
- Me desculpe, mas como você disse: sinceridade e cumplicidade.
- Sei, sei.
- Nossa, que pedaço de mau caminho. Moreno alto, bonito e sensual.
- Apepeô, tá passando dos limites.
- Tô praticando a sinceridade.

O moreno passa.

- Amor, sabe que vir a praia fortalece nossa relação.
- Hum, porque?
- Bem, vislumbramos lindos corpos e mesmo assim nosso amor segue inabalável. O corpo é apenas a casca, um invólucro, a embalagem do bom-bom, bem trabalhado, tenho que admitir, mas o interior é mais importante. E isso é o mais belo na nossa relação: nosso recheio.
- Amamos um ao outro pelo que verdadeiramente somos.
- Isso!
- Sabe, devemos vir mais a praia.
- Concordo!


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A vida em quatro etapas

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Primeira: encantamento
Tudo ao seu redor é novo e deslumbrante. Você se deixa embalar e acredita que tudo é possível. Nada pode frea-lo. Não ha limites. O mundo parece acolhedor e mágico. Seus sonhos estão há um palmo de distância da realidade.

Segunda: descoberta
Nem tudo são flores. Por algum motivo e de alguma maneira você descobriu que o mundo não é tão colorido quanto você imaginava, mas não chega a ser preto e branco, é simplesmente cinza. O que te venderam não é real. A vida não é dócil, ela te fará cair.

Terceira: tentar
A realidade bate a sua porta, você a atende cordialmente e para sua surpresa ela é totalmente indiferente. Você argumenta que pode salvar o mundo de seu fatídico fim e ela apenas sorri. Se você pudesse ler os pensamentos dela, diria: pobre garoto, desista! Outros tantos tentaram e fracassaram. Mas vá lá, tente. Depois não diga que não avisei.
E é o que você faz. E você pensa: vou provar a ela que esta enganada.

Quarta: aceitar
Após tentar, tentar e, tentar, Você fracassa. Não é um simples fracasso, não. Trata-se de um tombo faraônico. Uma, duas, três vezes, o resultado é uma constante desastrosa: insucesso. Não importa o quanto você tentar. O tempo passa e nada muda, algo novo começa a te fustigar: aceitar e desistir. Você não quer acreditar que abandonará sua filosofia de vida. Onde esta aquele garoto que queria mudar o mundo? Ele cansou. Cansou de dar murro em ponta de faca. Você aceita. Aceita o fracasso como companheiro. Você é incapaz de transformar o mundo. Não se sinta culpado, a vida te avisou: outros tantos tentaram e invariavelmente fracassaram.

No fim, você foge. Desisti de tudo que um dia acreditou.

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro

Você e a vida, em cima do muro, assistindo ao fracasso dos outros.

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